quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

CURRÍCULO

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João Magalhães Gonçalves é Padre Franciscano, nasceu a 18 de Fevereiro de 1939, em Freiria, freguesia de Jou, Concelho de Murça.
Andou pelas sete partidas do mundo, se assim se pode afirmar: Braga, Torres Vedras, Leiria e Lisboa, onde se ordenou sacerdote em 15 de Agosto de 1963, Guiné, Angola e Moçambique. Foi secretário do Prefeito Apostólico da Guiné e capelão militar em Angola. Em 1968 foi para Moçambique. Na cidade da Beira foi coadjutor da paróquia da Catedral.
Em 1973, é colocado no Seminário de Santo António de Chimoio onde leccionou a disciplina de Português, aos então 6º e 7º anos. Entra no Ensino Oficial, quando o Ensino particular foi nacionalizado, logo após a Independência do País em Junho de 1975.
A 12 de Fevereiro de 1976, o Curso Teológico é equiparado a Licenciatura em Filologia Clássica, das Faculdades de Letras. Em 16 de Fevereiro de 1977, por força do Despacho do então Ministro da Educação Científica Sottomayor Cardia, complementa as habilitações próprias para o Ensino Secundário, frequentando as cadeiras de Linguística Portuguesa I, Literatura Portuguesa II(da Licenciatura de Filologia Clássica) e Introdução aos Estudos Históricos, com aproveitamento e média de 14,5 valores.
Em Dezembro de 1976, regressa Portugal e, em Janeiro de 1977 é colocado, após concurso, na Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim.
Em 1978-80 lecciona na Escola Secundária Camilo Castelo Branco em Vila Real.
Faz o estágio pedagógico em Setúbal, 1980-82 na Escola Secundária de Bocage, em Setúbal. Aí continua nos últimos 29 anos, como professor de Português, em algumas escolas desta cidade. Em 8 de Agosto de 1984 passa a professor efectivo. Em 1997 redita o trabalho de Armindo Augusto” O Drama de Miguel Torga” sob o título “Miguel Torga, o Drama de existir”
Em 27 de Novembro de 1999, entra no Quadro dos Professores de Nomeação Definitiva, atingindo o topo da Carreira na subida ao 10º escalão.
Aposentou-se em Julho de 2005, procurando sempre conciliar a vida de professor com as suas responsabilidades de padre franciscano.

domingo, 17 de janeiro de 2010

ATÉ AO MAR

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(ao Aberto Moreira)

Rio
a deslizar
devagar
com saudades da nascente,
e a foz ainda longe…
e na corrente de margem
a margem, destino: a vida
no barco que trazemos a evolver-nos a alma
sempre ao sabor das águas
mágoas
e desgostos
afectos sem trégua
a desaguar
em estrelas, céu e mar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

FREI DANIEL TEIXEIRA


POEMA INCOMPLETO

(Ao último poeta que morrer)

O poeta tocou
o de leve
a palavra
e fez-se vida
fez-se voz…voou
e cantou
a grandeza de tudo.

Afagou os homens e as coisas
por dentro
naquele pudor alvoroçado
de quem toca o que não é seu
mas lhe foi confiado.

domingo, 10 de janeiro de 2010

QUARTETO

(ao Prof. Mata Fernandes)



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Continuas linda
minha rosa de Outono
na luz da cor
na sinceridade da vida
obrigado…
fala-me de magia.
*
Foste bonita
eu sei
e numa lágrima de espanto
vivo a dor do teu fim
ao desapareceres
bela ainda…
fala-me do futuro.
*
Vi-te nascer
crescer
dar flor
e na cor do adeus…
fala-me de eternidade.

*
O cheiro a terra lavrada,
embebeda-me a alma
transtorna-me
troco tudo
troco o fado pelo destino
pela sina que eu leio
nas linhas baças da vida
devotamente
no desmoronar dos dias
até ao meu regresso
em paz…

SULTÃO





(peregrino desde Assis)

Aqui me tens
de alma ajoelhada e o coração
aos pulos,
a pedir-te perdão
em nome do Senhor Nosso Deus
vim de longe
para falar à tua alma e ao teu saber
para que ouças a Sua voz
porque também é Pai
e me concedas o favor de rezar
contigo
neste lugar sagrado
sofrer com o pecado grande que é esta guerra
entre irmãos
na terra de meu Senhor Jesus Cristo.
Venho como peregrino e em paz .
- Vai ! De coração entristecido,
o digo:
a tua visita é para mim um tesouro,
as tuas palavras uma lição…
nas tuas mãos leva o meu querer e a minha oração
e a mágoa, que me fica no coração,
de te ver partir.
MURAL DE S. FRANCISCO


DR.ª ALDEGUNDES E FREI MIGUEL

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À FLOR DO VERSO

A leitura dos poemas deste livro pressupõe, à partida, um constante jogo de cumplicidades entre o poeta e o seu leitor, devido à riqueza ideológica e formal dos seus versos.

Por isso, à medida que vai descodificando a “perfeição” intencional da palavra, o leitor é surpreendido, constantemente, pela linguagem reinventada da escrita, transformada, então, em objecto de arte. Mas não se pense que a preocupação principal do autor é a de avaliar e provocar as competências literária e linguística de quem lê. Se, nos seus versos, há a inovação criadora e dinâmica da palavra, é nos silêncios, angústias e inquietações religiosas e humanas, que encontramos as grandes linhas temáticas desta obra. Elas estão bem presentes nas marcas dolorosas da “estrada”, por vezes, “larga demais”, percorrida pelo poeta e onde trava, quase sempre, uma luta desigual. A amizade e fraternidade são valores contrastantes com a realidade cruel que ele enfrentou e enfrenta, como “cativo deserdado”, a ponto de confessar: “Preciso de colo, de

Assim, embora consciente da asserção de Pessoa “o poeta é um fingidor”, atrevo-me a afirmar que, nestes poemas, podemos encontrar o drama inteiro do Homem ainda que envolto na roupagem das metáforas.

Ao longo da obra são, pois, facilmente descodificadas as marcas profundas do sofrimento humano de todos os tempos: os pesadelos e tormentos do passado “ (…) hoje mais futuro que o presente”; a frustração por tanto ter deixado por fazer “ (…) na vida tão curta / que teve de ser vivida a correr” e a fragilidade do homem sofredor que lembra ao Pai a carência de Amor, in “Pai, sou eu!”. A morte dos amigos e dos entes queridos também não é esquecida pelo poeta. “Era de cardos o caminho, “Promessa”e “Hora di bai” são poemas revelares de que a Amizade é, para ele, um valor imprescindível na linha dos afectos. Mas é em Deus que ele procura apoio, de tal modo desiludido e fragilizado num mundo, onde apenas reina o “deserto” e o “ cansaço”.

Consequentemente, tomamos consciência da contribuição importante do “espaço intertextual” que desde cedo envolve o poeta e enriquece, ainda mais, o conteúdo dos seus versos. Quanto a mim, este livro é, acima de tudo, um mosaico resultante da mistura de códigos, onde valores culturais, religiosos e humanos se materializam na palavra.

E, apesar da notória presença das marcas disfóricas do pessimismo, do sofrimento, da frustração e da desilusão, resultantes da frágil condição humana, elas são superadas pela força da Fé. É ela que as transfigura e sublima! É em Deus que o poeta encontra a certeza do Amor. É na sua missão evangelizadora que ele se realiza verdadeiramente: “Eis que vos mando / como ovelhas para o meio de lobos”!Em suma, é nos valores absolutos que as suas fraquezas, emoções e sentimentos são transfigurados e sublimados!

Maria Aldegundes Fonseca