terça-feira, 1 de junho de 2010

E, por fim, a Páscoa chegou para o João, autor deste blogue! Aleluia!


"Eu sei que o meu Redentor está vivo
e no último dia Se levantará sobre a terra.
Revestido da minha pele, estarei de pé,
na minha carne verei a Deus.
Eu próprio O verei,
meus olhos O hão-de contemplar"
Livro de Job (19, 1.25-27)



No último texto da sua autoria (ver abaixo na íntegra) deixa-nos em comunhão com o Espírito Santo um testamento:

Nós
e o Espírito Santo
(...)
Como testamento
um mandamento:
amai
respeitai
procurai o bem
onde a eternidade começa
e o Reino…
dai pão aos famintos…
a recompensa
é essa!

J.M. Gonçalves


Dos mais de trinta anos de convívio com Frei João, os últimos meses foram de convívio íntimo mais intenso. Este blogue de que fui cúmplice, foi cruzado de imensos telefonemas em que as ideias, as mais variadas, fluíam como jorro de fonte límpida, numa mente que, por vezes, já precisava de parar para apanhar fios perdidos na meada do tempo.

A última chamada não foi atendida e quando, horas mortas, dei pelo chamamento, não quis perturbar-lhe o Sono que não sabia estar a aproximar-se na sua forma Eterna.

Soube-o no dia seguinte, dia vinte e quatro de Maio, eram umas dez horas da manhã...

Um Dia retomaremos a conversa, João, no ponto em que a deixaste! Entretanto vou congeminando sobre o que é que me querias dizer nessa véspera da tua Páscoa para o Reino.

... era talvez para te despedires, pois os amigos não partem sem avisar!

Peço-te desculpa pela minha falta de atenção. Entretanto...

Vai-te lembrando de mim, aí no Reino...

e Até Breve

Mata Fernandes

Nota: Ver notícia biobibliográfica sobre Frei João

segunda-feira, 17 de maio de 2010

JOSÉ MOURINHO

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A espuma dos dias

( ao José Mourinho)

Apontei o dedo ao destino
e disse:
é por aqui
o real e o sonho deram as mãos
o querer
com a meta tão longe de mim
tornaram mais firme
o caminhar atento e decidido
na certeza de chegar
a espera deu-me alma
e ânimo, por dentro,
a olhar sempre em frente
olhos nos olhos
na alegria de chegar,
tinha o mundo na mão
ta vitória dos dias que me seguiam
e se desdobraram…
fui onde cheguei, e ainda é cedo
O desafio continua no ponto mais belo de existir
escolher os momentos certos
viver a vida com o coração, mas sempre
de olhos bem abertos!
Ontem
foi o futuro…
in "À flor do verso" de J.M. Gonçalves

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O SENHOR PAPA

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Cimabue
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Nós
e o Espírito Santo
não vos impomos nada,
amai
dizei
e fazei
proclamai quem é a Verdade
a Bondade
ainda que vos custe a vida
e a morte esteja, a dois passos
como um fim que não é,
assim está escrito.
Como testamento
um mandamento:
amai
respeitai
procurai o bem
onde a eternidade começa
e o Reino…
dai pão aos famintos…
a recompensa
é essa!

J.M. Gonçalves

quinta-feira, 13 de maio de 2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

ROSAS

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Foto J. M. Gonçalves

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Foto J.M. Gonçalves



Foto J. M. Gonçalves

domingo, 9 de maio de 2010

sábado, 8 de maio de 2010

O PASTOR

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(ao meu Bispo)

O pastor
arauto e voz
de quantos o seguem e ouvem
e reconhecem aquele chamar
pelo nome
que só eles sabem
e guardam
no coração
e no espelho do olhar atento
de quem ama.
No sono sobressaltado,
sossega,
depois de as ter contado
e não lhe faltar nenhuma.
É o regresso.
No ombro cansado da caminhada
no remorso de a ter perdido
uma ovelha tresmalhada…
o cordeiro que traz ao colo
nascera há pouco…
já tem nome que vai aprender
com o bater daquele coração aliviado
a transbordar de ternura e alegria
naquele fim de tarde
consolado e feliz.

Abrem-se as portas.
Uma voz conhecida chama:
são as suas!

J.M.Gonçalves

ALERTA

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Foto J. M. Gonçalves

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…e a vida em flor
desabrochou
em milhares de olhos
fixos na luz que os move
e os comove
coração a transbordar
da franqueza de se dar
num canto alado de arvoredos e céus
ânsias que se consomem
na procura e resgate
do futuro
nas pistas do tesouros por descobrir
no querer
ir sempre mais longe
de mãos dadas a cantar
a sorrir e a amar no segredo dos dias
sem ocaso.

in "À flor do verso"

sexta-feira, 7 de maio de 2010

COM SOL

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Ao vento

Nasceram-me sonhos
sem palavras
a borbulhar ao vento...
o azul do mar mais lento
nas horas e no alento da luz mágica
da cambraia dos desejos
nas ondas e marés
da vida.
J.M. Gonçalves

quinta-feira, 6 de maio de 2010

ANDA VER

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Cheia de aleluias
nos olhos
naquele azul de noite
quente
a nova
de que o presente
a dádiva que nascera
do ventre fecundo
da alegria
sorria
cantava no seu chorar
de menino
a promessa cumprida
do que agora
é…

J.M.Gonçalves

O PÃO

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Julien Dupré

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PÃO BENTO

Pão bento
da raiz à espiga
na força de crescer
e ficar loiro
como o desejo
de acompanhar o vinho
novo
do reino já anunciado,
para além da seara,
no cruzar
de todos os caminhos.
Torna-se alimento,
força
sustento e certeza
futura
de qualquer e nova
semeadura.
J. M. Gonçalves

Poema da PRIMAVERA

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VER-TE-EI
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Foto J. M. Gonçalves


Ver-te-ei, amor
numa esquina da vida
perdido
e de mão estendida
à procura do teu olhar
ou de um gesto…
em vez da esmola
esperada
que já não quero
e que me foi negada.
J. M. Gonçalves

domingo, 25 de abril de 2010

ANTÓNIO SANTOS - Pintor

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MULHER


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O sangue é algemas
cor e dor
exuberância feminina
obscena e explorada
na confusão de cores e volumes
cores que se abraçam e entrelaçam
ou não
provocadora...
a mulher também
em todas as cores
em todas as dores...
mágicas
do arco-íris.
J. M. Gonçalves

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ANTÓNIO SANTOS SILVA

Nasceu na aldeia de Castro (Valpaços), foi viver para Jou, aos 10 anos de idade.
Aos 24 anos emigrou para Paris, trabalhando em diversos ofícios.
Actualmente tem uma empresa de pintura e restauro de imóveis onde trabalha.

O permanente contacto com pintores e a pintura leva-o a enveredar por este processo de expressão artística e cultural.
Frequentou vários cursos de escultura pintura, e modelagem, no Carroussel do Louvre, com conceituados Mestres da Pintura.
Começou a expor os seus trabalhos em Exposições colectivas, e depois em Exposições individuais: em França, na Bélgica, na Alemanha e em Portugal.

POEMAS ILUSTRADOS

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EMAÚS
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A dois passs da esperança

O caminho era cada vez mais longo.
Tantas vezes o percorreram.
Porquê agora, aquele peso na alma
e o desgosto a consumi-los por dentro,
aquela conversa trôpega, quase murmurada,
como se estivessem a guardar um segredo,
ou a esconder a angústia
que lhes ia na alma, com o coração em pedaços.
- De que falais?
Vidas. Consumiu-se a nossa esperança,
sonhámos a liberdade, um mundo novo,
a alegria da mão que se estende, na doação fraterna,
no entusiasmo de dar alegria e viver. Tudo morreu
tudo desapareceu
no maior sofrimento,
no limiar da morte,
atravessado de cravos…
- Porquê essa conversa?
- Que pergunta! Aconteceu.
E agora? Temos os sonhos lavados em lágrimas.
A promessa fugiu-nos por entre os dedos,
Como água que não beberemos.
- Mas não devia ser assim?
- Correram vozes que quase nos fizeram acreditar…
mulheres!
É noite, fica connosco, faz-nos companhia.
Repartiremos contigo
o que tivermos.
Um gesto, um olhar, um pedaço de pão…
uma alegria fogosa, mas tranquila
empurrou-os numa corrida para Jerusalém.
Entraram com a notícia
mas não era novidade .O coração deu um salto.
Na alma assustada, num eco longínquo
o coração, ainda aos pulos de alegria e confusão,
lembrou:
- Mas, não devia ser assim?

J. M. Gonçalves

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Frederic Chopin (1810-1849)

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Assinatura
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Frédéric Chopin (Żelazowa Wola, 1 de Março de 1810[1] — Paris, 17 de Outubro de 1849) foi um pianista polaco[2] e compositor para piano da era romântica. É amplamente conhecido como um dos maiores compositores para piano e um dos pianistas mais importantes da história[3] Sua técnica refinada e sua elaboração harmónica vêm sendo comparadas historicamente com as de outros génios da música, como Mozart e Beethoven, assim como sua duradoura influência na música até os dias de hoje uma técnica refinada e sua elaboração harmónica vêm sendo comparadas historicamente com as de outros génios da música, como Mozart e Beethoven, assim como sua duradoura influência na música até os dias de hoje

CHOPIN

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MIRÓ


Iguais
os acordes e a marcha
lenta
de despedida.
O piano é mais triste
ainda!
É o apagar de uma vida
de uma viagem
e um adeus.

J. M. Gonçalves

domingo, 11 de abril de 2010

SENHORA DAS DORES

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Van Gogh

Eis o mandamento
e a dor
de amar ainda mais
esse teu filho
a quem te deixo
nas encruzilhadas do mundo
a espalhar gestos de mãe
nos rostos e nas dores
de tantos
abandonados
perseguidos
derreados pelo cansaço
da vida
das feridas abertas
no corpo e na alma
no desencanto dos dias
sem luz nem norte
e tu
aí tens a Mãe
que é tua também
a quem acolhes
nas preces de cada dia
com o coração despedaçado
porque lhe vai ser tirado
o filho que deu à luz.
Faz do teu coração
a sua casa.

J. M. Gonçalves

sábado, 27 de março de 2010

PORCA DE MURÇA

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PORCA DE MURÇA


duraremos
a eternidade circular
da sua forma ambígua e
tumular

deusa-mãe do
terror que a fé na pedra copiou
e que o musgo do tempo disfarçou

a nossa condição é o seu rito
criaturas geradas
das suas entranhas geladas
de granito


Fernão de Magalhães Gonçalves
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Porca de Murça

É o símbolo que identifica a vila de Murça.
Esta escultura em granito, encontra-se rodeada por lendas popular, não sendo exacta qual a sua verdadeira proveniência e propósito.
A lenda mais popular é que no século VIII esta povoação e o seu termo eram assolados por grande quantidade de ursos e javalis. Os senhores da Vila, secundados pelo povo, tantas montarias fizeram que extinguiram tão daninha fera, ou escorraçaram para muito longe. Mas, entre esta multidão de quadrúpedes, havia uma porca (outros dizem ursa) que se tinha tornado o terror dos povos pela sua monstruosa corpulência, pela sua ferocidade, e por ser tão matreira que nunca poderia ter sido morta pelos caçadores. Em 775, o Senhor de Murça, cavaleiro de grande força e não de menor coragem, decidiu matar a porca, e tais manhas empregou que o conseguiu; libertando a terra de tão incomodo hóspede. Em memória desta façanha se construiu tal monumento, alcunhado “a Porca de Murça”, e os habitantes da terra se comprometeram por si e seus sucessores, a darem ao Senhor, em reconhecimento de tão grande benefício, para ele e seus Herdeiros, até no fim do inundo, cada fogo três arráteis de cera anualmente, sendo pago este foro mesmo junto à porca.
No entanto, há quem defenda que os atributos masculinos bem visíveis não enganam, e que a Porca de Murça, é na verdade um berrão, do mesmo género dos que se encontram frequentemente na zona oriental de Trás-os-Montes, relacionados com um culto da fertilidade de povos pré-romanos.
Seja como for, é hoje um monumento que se ergue, orgulhoso sobre um plinto, no jardim da praça central, com os seus impressionantes 2,8 metros de medida no ventre, 1,10 m de altura e 1,85 m de comprimento.

domingo, 21 de março de 2010

DA POESIA

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PARA SEMPRE
(ao Pedro))

É hoje, é todos os dias
são todos os momentos
na vida
que passa devagar,
no nosso sim eterno a partir de cada aurora
dois corações a palpitar
de esperança
num só
nesta demora de prazer e lágrimas
neste presente repetido
de sofrimento
no oferecer e lembrar em cada lágrima perdida
de angústia e azul
na sombra envergonhada que nos segue
e seguirá
nas horas aflitas que foram as nossas…
Amanhã voltará
a alegria e a dor
de amar
para sempre.
Milagres, só o amor…

J.M. Gonçalves
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sexta-feira, 19 de março de 2010

VIRGÍLIO FERREIRA

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Nasceu em Melo, no concelho de Gouveia, em Janeiro de 1916, filho de António Augusto Ferreira e de Josefa Ferreira. A ausência dos pais, emigrados nos Estados Unidos, marcou toda a sua infância e juventude. Após uma peregrinação a Lourdes, e por sugestão dos familiares, frequenta o Seminário do Fundão durante seis anos. Daí sai para completar o Curso Liceal na cidade da Guarda. Ingressa em 1935 na Faculdade de Letras a Universidade de Coimbra, onde concluirá o Curso de Filologia Clássica em 1940. Dois anos depois, terminado o estágio no liceu D. João III, nesta mesma cidade, parte para Faro onde iniciará uma prolongada carreira como docente, que o levará a pontos tão distantes como Bragança, Évora ou Lisboa.
Este homem reuniu em si diversas facetas, a de filósofo e a de escritor, a de ensaísta, a de romancista e a de professor. Contudo, foi na escrita que mais se destacou, sendo dos intelectuais contemporâneos mais representativos. Toda a sua obra está impregnada de uma profunda preocupação ensaística.
Vergílio foi também um existencialista por natureza. A sua produção literária reflecte uma séria preocupação com a vida e a cultura. Este escritor confessou a Invocação ao meu Corpo (1969) trazer em si “ a força monstruosa de interrogar”, mais forte que a força de uma pergunta. ”Porque a pergunta é uma interrogação segunda ou acidental e a resposta a espera para que a vida continue. Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação”.
Este pensador tecia reflexões constantes acerca do sentido da vida, sobre o mistério da existência, acerca do nascimento e da morte, enfim, acerca dos problemas da condição humana.
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APARIÇÃO
Virgílio Ferreira .

A Tragédia(1)

Foi longa a história deste género dramático. A Tragédia, tem origens nebulosas nas remotas festas anuais gregas, em honra de Dionísius.

Alcançou a sua plenitude nos Sec. VI a IV A.C., com Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Ressurgiu com o Renascimento, entrou em declínio com o Romantismo como género de literatura autónomo.
Todavia o trágico, como categoria antropológica e semântica manifesta-se através de outros géneros literários: a poesia, o teatro, o romance.


Acção Trágica

Segundo os princípios estabelecidos por Aristóteles, na Poética, há uma ordem de construção da acção trágica, desenvolvendo-se, em três momentos essenciais : Prólogo, onde se apresentam as personagens e é exposta a situação a partir da qual se vai construir a tragédia; os Episódios ou peripécias que constituem o desenvolvimento, em “ crescendo “, dessa situação de partida. Através delas, a acção vai-se desenrolando e o sofrimento ( Pathos ) dos intervenientes é cada vez maior, até se chegar ao ponto culminante dessa acção e desse sofrimento - o Clímax - que pode coincidir com a “ morte “ ou as mortes das principais persnagens, a que se seguirá a última parte da tragédia, o Epílogo - em que tomaremos conhecimento das consequências das peripécias e do explodir do Clímax/ Catástrofe. Presidindo a toda a tragédia, está a presença do Destino (Fatum) a quem nem aos deuses é permitido desobedecer que passará a controlar, ainda que inconscientemente, as personagens e as leva a desafiar as leis dos homens ou dos deuses. Tal desafio ( Hybris ) não ficará impune, e sobre quem desafia, recairá o castigo ( Nemésis ) dos deuses ou da sociedade. Esta situação de luta interior irá criar nos intervenientes( por vezes a níveis diferentes ) angústia e sofrimento que se irá acumulando e aprofundando, até ao Clímax e levará à destruição (Catastrophe) física ou moral, ou aquela como consequência desta, das personagens que ousaram desfiaro destino.
Os elementos trágicos vão sendo desvendados pelos presságios que vão indiciando, com o decorrer dos acontecimentos e preocupações do(s) protagonista(s), algo que paira ameaçador, criando uma atmosfera de fatalidade irreversível. Em outros casos o “ reconhecimento “ ( Agnórise ) vem precipita a acção através da revelação de algum facto ou vivência íntima, encaminhando-se para o desfecho trágico ( Epílogo ).

COMPONENTE TRÁGICA EM “APARIÇÃO “

“ Uma Língua é o lugar de onde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir “ ( Vergilio Ferreira )

Os Homens e os Deuses

Uma das dimensões fundamentais desta obra de Vergílio Ferreira é a componente trágica,neste livro que foi designado como livro da Condição Humana.
Desde a Antiguidade que cabe à tragédia uma função de reflexão profunda, sistematicamente virada para os grandes problemas e as relações dos homens com os deuses e dos homens com os homens. Embora não estando perante uma tragédia, no sentido estrito e técnico da palavra, há afinidades entre a história narrada e o universo da tragédia. Esta afinidade, mesmo dada à estrutura narrativa muito própria de Vergilio Ferreira em “ APARIÇÃO “, pode detectar-se no desenrolar dos acontecimentos que integram a narrativa deste romance.

Neste sentido, descobrimos em “ APARIÇÃO “ essa vivência trágica, na linha dos princípios estabelecidos nas constantes da tragédia estudadas e simplificadas pelos estudos de autores mais recentes.

- “ Tudo o que é forte e decisivo acontece como ter fome “.

- “ Quando me deitei e apaguei a luz, o convite do Chico para fazer a conferência incendiou-me o alvoroço. Tinha ali uma oportunidade de pôr em ordem o que me excitava. Um dia poderia desenvolver as minhas ideias num estudo mais longo: agora precisava de as fixar nos pontos capitais. E foi isso que desencadeou toda a história que narro".

Centremos a atenção sobre as personagens fulcrais da acção: Alberto Soares, Sofia e Carolino.
Alberto Soares, professor em início de carreira, chega a Évora, a cidade Ermida, onde passará, a nível diegético, o tempo medido de um ano lectivo. Também o que desde logo se torna evidente é o Espaço que não pode ser entendido no sentido linear das categorias da narrativa tradicional, pois o narrador - autor subverte-o, ganhando outras dimensões míticas e simbólicas. A vivência trágica projecta-se no próprio espaço evocado, por, em muitas passagens, envolver e projectar animicamente personagens e acontecimentos. E só para as personagens trágicas individualizadas a paisagem se reveste de características trágicas.

- “ O Alentejo era trágico, não lírico, só uma praga, a blasfémia ardente o exprimiria “.
- “ E ali parado, em face da cidade perdida na planície, era como se ouvisse em mim um coro de peregrinos, à vista de um santuário nas romagens antigas “.

Paisagem trágica, quando a planície se submerge alucinada de fogo e o velho calor alentejano, “sólido”, se agarra à terra, com um ódio tenaz.
O Alentejo, Évora, a casa, o café...., espaço virtual, se não fossem os nomes a chamarem-nos à realidade, à história, à “ terra calcinada “, deserta, estéril (....) "o teu destino de desastre, Sofia “.

- “ E agora que escrevo esta história à distância de alguns anos ......”.

A acção é cadenciada no tempo, pelas estações do ano. - “ Venho em Setembro, como da primeira vez.“. O complexo universo do protagonista Alberto Soares reporta-nos à vivência de um tempo passado que se torna presente pela memória.Alberto Soares, em Évora, vai ser um revelador. Pela sua mediação, as personagens vão fazer a descoberta do próprio mistério com as consequências que advirão dessa descoberta. A categoria menos elaborada nos romances de V.F. é a “ acção “, o que parece paradoxal, mas não tanto, se atendermos às palavras do escritor: “ É-me absolutamente incomportável, primário, infantil, um romance que me conte ainda uma “ história" .

Contudo, não deixam de ser verdadeiras narrativas ,uma vez que têm personagenxs desenvolvendo-se, no espaço e no tempo, que, com os mais ingredientes narrativos, vão tecendo uma história, no sentido romanesco do termo. Mas, é só a partir do alvoroço intelectual em que o lançou o convite do Chico e agarrou “ a oportunidade de pôr ordem no que me excitava “.

“ ALEA JACTA EST “

Tomando como ponto de partida o Cap. III, deparamos com o que poderíamos classificar, como Prólogo do desenrolar trágico dos acontecimentos.
No Café “ onde viria a instalar-me para sempre “, Alberto Soares encontra o Dr. Moura e é Sofia que aparece, premonitoriamente , em primeiro lugar... “ que também faz versos....” Então sumaria, em expressões incisivas o itinerário futuro de Sofia: “ Luz do meu Inverno ....olhar ácido de pecado... canto ardente iluminado de loucura.... mistério da vitória e do desastre, da violência do sangue...a angústia do teu grito contra os céus desabitados ?.....”. Mantendo um espaço interior, aceita o convite e vai jantar com a família Moura. A noite envolve-o a planície que exerce sobre ele uma sedução não totalmente nova:.. “ a montanha e a planície falam a mesma voz primordial “. Tudo se encaminha a nível do discurso para o evocar, emocionado, a memória de Cristina, “ a voz mais perfeita de tudo quanto me aconteceu “. Logo chega Sofia “como numa expectativa de teatro“ salientando a exuberância dos atractivos femininos, numa sedução antecipada a que depois se rende como algo de fatal ligado ao futuro das personagens.Um alarme interior soou, quando, ao apertar a sua mão com calor, se sentiu subitamente infeliz. A mão do destino servir-se-à do latim, para os juntar mais tarde
Sofia, pela sua maneira de ser e de agir, devido ao meio fechado em que se encontra, desafia toda e qualquer regra, quer no plano dos homens quer no plano dos deuses. Sofia constitui uma desafio permanente, inconscientemente, desde a “criança difícil", no dizer do pai, aos seus caprichos de garota e todos os desvarios, os excessos que, numa rebeldia natural, marcam a sua futura personalidade de (quase) adulta, na altura dos acontecimentos fatais. Apercebe-se de que tem um destino a cumprir e esse destino leva-a a desafiar tudo e todos. Desaparece de casa após a repreensão da mãe, e por ter aparecido de vestido roto diante das “pessoas de cerimónia“. Quando o pai falava de morte (....) "ela sorria com ar distante, separado, de uma louca “. Metem-na num colégio. Tentou suicidar-se duas vezes ...” melhor que à náusea das compensações mundanas, preferias o absoluto da destruição“.

- “Com o teu riso fresco , os teus olhos vivos de inocência e perversão."
- “Bela como a perdição, como todo o pecado “.

Assim vemos que, simultaneamente, Sofia obedece, com a sua personalidade, a outra característica da tragédia: é nobre de carácter. “ Mas Sofia sabia-se excepcional (....) Eu sei o que quero. Eu sei ! ” (16). Mulher de corpo inteiro e sedutora: “Por isso se vestia em perfeição, destra e aguda, disparada desde os saltos altos aos seios agressivos, aos olhos rectos e lúcidos. E eu sentia que tudo o que é vivo em terra estava ali presente no seu corpo".

“Quando querem destruir alguém os deuses começam por enlouquecê-lo “(EURÍPEDES ).

Carolino, que aparece com o desenrolar dos acontecimentos, só por si constitui o que é, por definição, uma “ personagem trágica “. Aluno do Dr. Alberto Soares como Sofia, e primo de Chico. No decorrer da narrativa aparece estrategicamente, quando se fala do suicídio do Bailote e se nota a sofreguidão e espanto estampados no rosto do Bexiguinha a querer saber o que se tinha passado: “-Que foi ?Que foi ?”. O professor divaga sobre a necessidade de “ajustar a vida à morte... e ver a harmonia de ambas".


Não entendia, mas foi ouvindo, interiorizando, exprimindo-se numa linguagem atribulada a prenunciar, talvez, a loucura que o viria a possuir e (des) controlar. “ Eu estava atónito, porque sentia em Carolino...loucura". Carolino: - “ Eu não digo que se mate, senhor Doutor, eu não digo isso. Digo que matar é igual a criar “. Na sua loucura desafia os deuses, na forma mais extrema e fatal de desafiar as leis dos deuses e dos homens.” Alberto Soares compreendia-o. A ironia baixa de Chico sobre as galinhas ferira profundamente Carolino, no seu amor próprio. Queria “sentir-me bem de dentro para fora, descobrir a “pessoa” que está em mim “. O desafio de Carolino, atinge mais acuidade, quando se sente igual aos deuses:
“ -Já não há deuses para criarem e assim o homem, senhor Doutor, o homem é que é deus porque pode matar”. Este e outros comportamentos constituirão, só por si, um indício da tragédia que se irá desenrolar. É a destruição que o domina contra a realidade primordial que é a vida: “- A vida é um milagre fantástico - disse eu - a vida é um valor sem preço", contraporá Alberto Soares.

- “ Que maldição pesa sobre a assunpção do nosso destino?, sobre o nosso confronto connosco mesmos?, sobre a evidência da nossa condição”?

Esta reflexão do narrador pode-se aplicar, igualmente, a Sofia, Carolino e Alberto, na tentativa de se compreenderem. O desafio foi demasiado longe e tinham que ser castigados (Nemésis). O papel do destino, no desenrolar da tragédia,é esparso. É desvendado pelos acontecimentos que, em crescendo, que precipitarão a catástrofe final. Alberto Soares é um elemento perturbador e agente do destino, enquanto irá despertar o inconsciente adormecido das personagens ,o se torna numa maldição punível.

Da análise das personagens Sofia, Carolino e Alberto Soares, ressalta uma série de elementos e identidade a que se ajustará um final trágico. O conjunto de capítulos XIV a XXI no desenrolar da acção ,o que é relativo, na economia da narrativa de Vergilio Ferreira, dada a densidade trágica de quase todo o romance. E é na angústia da descoberta de si mesmos, o terem de viver aquilo que são,sem nunca o conseguirem, que vai ser o elemento essencial do sofrimento ( Pathos ) em que irá clarificar a componente trágica. Verifica-se então uma aproximação cada vez maior de Sofia e Alberto Soares numa “união trágica e blasfema “ e a quem Sofia chama: “ - Meu querido assassino (...) meu bom assassino”, que marca o primeiro “ reconhecimento “ (Agnórise) de Alberto como agente do destino.
Em relação a Carolino, intensifica-se a relação professor - aluno , e ultrapassa a mera relação mestre/discípulo, entendendo o a morte como destruição, como réplica negativa do acto criador de Deus. tendo como ponto culminante a morte acidental de uma galinha, frente à qual Carolino fica fascinado. Mais um “indício“ que vai levar à quase ruptura de Alberto com Sofia, o que acabará por acontecer, vindo Carolino a ocupar o lugar deixado por Alberto. Devido certa desorientação interior, o protagonista retira-se para a casa do Alto. Em todo o capítulo XVII, tenta analisar todas as suas incertezas, memórias velhas, e saber se, ao fim de contas, escreverá para alguém : “ Não escrevo para ninguém, talvez, talvez...”.

“ Morre jovem o que os deuses amam”. ( Fernando Pessoa )

Nesta precipitação fatalista, vários indícios trágicos antecedem a morte de Cristina. Cristina morre quando "os campos estalavam de fecundidade ! “. É a primeira vitima "trágica" sem literariamente o ser, numa história que quase lhe passa ao lado.Por acidente aparece no mundo, por acidente o deixa. Vítima inocente:”...uma criança era o bastante para erguer o mundo nas mãos e que alguma coisa no entanto, a transcendia , abusava dela como de uma vítima, angustiava-me quase até às lágrimas “.


"A MINHA HISTÓRIA ESPERA-ME MAIS TERRÍVEL QUE NUNCA, DISPARANDO PARA O SEU DESFECHO “. ( Alberto Soares )



No capitulo XIX, Alberto recorda “ tudo desde que chegara a Évora”, quando todos abandonaram a cidade. O destino põe frente a frente Alberto Soares e Carolino, numa preparação próxima para o desenlace. Bexiguinha tenta assassinar o professor. Alberto Soares começa a dar sinais de auto-culpabilização: “ mas eu sentia obscuramente que apenas me esbofeteava a mim “. E, para Carolino: “ o teu crime era contra a vida,contra o absurdo que te assolou. Mas eu não queria isso... Pela primeira vez terá tido a noção do peso da sua influência sobre aqueles que elegeu para seus discípulos . E desta responsabilização nunca mais se irá libertar, como profetizara Chico : “- Não pense que isto fica por aqui. Você é o responsável por tudo quanto acontecer.” Ao que Alberto Soares encolheu os ombros, desandando solitário por uma cidade que lhe pareceu despovoada e inventada a desastre e a espectros “.
Tudo se precipita. A relação entre Carolino e Sofia acaba e as culpas recaem, indirectamente,pela boca do reitor, em Alberto Soares, apesar da loucura dos dois jovens. Uma inquietação crescente vai-se apoderando das personagens: Carolino e Sofia “destruíam-se com o seu protesto, mas recusavam-se a renegar o seu destino, morriam no combate, mas não pretendiam salvar-se fugindo desse combate “ (32). Estão definitivamente “ fulminados de maldição “ de castigo .

“Que maldição pesa sobre a assunção do nosso destino ” ?

Férias. Sofia reaparece e nos últimos três capítulos os acontecimentos acumulam-se.
Sofia assume cada vez mais a sua própria loucura com uma tentativa frustrada de suicídio. É o destino que marca o encontro com Alberto,através do convite de Alberto Cerqueira. A última vez que Alberto a vê “ num banco secreto de jardim. Estava com Carolino “. O protagonista lembra o telefonema recebido no liceu como prenúncio de todo o desfecho: “ - Só você é responsável. Só você “ (35). Este “ aviso absurdo “, eco do aviso de Chico, constitui um segundo “ reconhecimento “. Com a notícia da morte de Sofia, a tragédia atinge o seu clímax: “ Sofia apareceu num caminho que parte do chafariz de El-Rei, assassinada a punhal “.

Carolino foi o autor do assassínio, e“ morre “, psicologicamente, no auge da sua loucura. Ele é o instrumento do destino que tinha necessariamente de atingir Sofia, porque a ameaça de morte violenta pesava sobre ela com a força da fatalidade inexorável.
Alberto não é notificado para o julgamento, mas o remorso, o sentido de culpa e aniquilamento acompanham-no ao longo de toda a narrativa. “ Eu, porém, não queria envenenar-te , ao contrário do que depois se afirmou. Grito daqui aos que me acusam, grito-o com toda a força, uma igual e invencível como a desta montanha na noite “ (38). O protagonista afasta-se de toda a acção trágica, mas a memória, avivada pela emoção acompanha-lo-à:“O espaço esvazia-se até ao limiar da memória onde alastra o meu cansaço, o afago quente de um choro, o aceno de sinais que se correspondem como ecos de um labirinto. Num oblíquo aviso afloro o que estremece sob os gestos enfim apaziguados. Évora. Évora ".
Saliente-se o modo como o narrador comenta o desenrolar dos acontecimentos, num tempo de distância e memória , à maneira do coro na tragédia grega.
- “ Voltar para Évora. Como? Ah não !. Era o cúmulo “. No entanto o narrador leva-a na alma, em chamas, sonhos, de “ olhos saqueados “, longe de Prometeu-em direcção ao Cáucaso- castigado pelos deuses,por que lhes roubou o “ fogo” sagrado para o dar aos homens.
Assim a tragédia atinge o EPÍLOGO.


“ ADEUS, REITOR . ATÉ SEMPRE “.

O autor é condenado a partir, rumo à contínua procura e descoberta de si mesmo, no, da sua condição humana, sem deuses para o salvarem. Não resistirá à tentação de reentrar no mundo da inocência perdida...com saudades da Harmonia e da Ordem metaforizadas no canto e na música, desde Chopin tocado por Cristina, aos coros dos ceifeiros e dos cânticos de Natal na sua aldeia: “ Os cânticos irradiaram de novo na Igreja, abrindo no adro como uma grande flor de neve “.
Volta para Évora, de onde nunca saiu. “A noite avança, a minha cidade arde sempre.(...) Mas não sabia eu que ela devia arder ?(...) O que sei é que a morte não deve ter sempre razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens ”.

VOLTARÁ EM SETEMBRO, COMO DA PRIMEIRA VEZ.


Setúbal, 06 de Janeiro de 1998

João Magalhães Gonçalves
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(1) Na elaboração deste trabalho foi usada a 29ª edição de APARIÇÃO, Lisboa-1994